Serra da Paulista

A Serra da Mantiqueira que emoldura São João da Boa Vista, ora apresenta-se feérica, plena de luz, majestosa, ora mostra-se nebulosa, diáfana, longínqua, mas sempre extremamente bela e azul, a quem tem olhos para vê-la. O nome local desta muralha, que se constitui em divisa natural entre São Paulo e Minas Gerais, é Serra da Paulista. A origem deste nome parece perdida nas brumas da história. Dizem alguns que por ser a vertente paulista da Serra da Mantiqueira, recebe esta denominação para diferenciar da vertente mineira voltada para as Minas Gerais.

Porém, se é para nomear a localização geográfica bastaria ser chamada Serra Paulista e não da Paulista, que indica posse, pertencimento. Pesquisando este fato foi dito que ali morava uma mulher, presumivelmente paulista, que era muito importante, famosa – mas não souberam dizer porque era importante, famosa, e passaram então a chamar de ‘Serra da Paulista’, querendo dizer Serra em que mora a Paulista’.

Indo-se além, nas indagações sobre qual mulher ‘famosa’ que morou na Serra, soube-se que na região de São Roque da Fartura existiu uma de nome Carmem Maldonado, dinâmica com participação ativa no povoado. Pelo menos uma vez por ano vinha, a cavalo, até São João, era muito alta, físico volumoso. Mudou menina para lá, veio da Espanha, enviuvou cedo, possuía veia política e era muito respeitada, sendo consultada em casos de conflitos ou problemas. Possuía habilidade em conduzir os entreveros surgidos, sendo uma espécie de conselheira. Promovia festas religiosas e liderava a população do bairro. Mas qual a relação dela como sendo “a paulista” de onde se deriva a palavra da Paulista? Em conversas informais havidas com pessoas ligadas à história de São João, ninguém soube dizer mais nada sobre este fato. A Serra da Paulista sempre foi conhecida também pelo nome de Serra da Fartura, devido às terras férteis de que é possuidora, havendo inclusive em seu alto o Bairro São Roque da Fartura.

Quanto à ocupação desse espaço, conta a história oral que primitivamente o “Mirante da Fartura” foi habitado pelos ‘Índios Caiapós’, os quais, com a chegada do homem branco, viram-se forçados a se retirar para as barrancas do Rio Pardo.     O grande problema, porém era que a Serra da Paulista, de modo geral, e São Roque da Fartura, em específico, apesar de possuírem terras férteis e clima invejável, eram locais de difícil acesso, ficando sua população, muita vezes isolada. “Descer ou subir a montanha era empreitada difícil. No tempo das chuvas, então, as próprias carroças puxadas por oito burros bem alimentados, dormiam, às vezes, enterradas em profundos buracos de lama”.(História de São João; Salomão; 178).

A população ali segregada pela dificuldade de comunicação sofria imensos problemas, inclusive o de enterrar os mortos no tempo das chuvas. Padre Josué, no início do século XX, empenhou-se junto à Câmara Municipal de SJBVista, e conseguiu que fosse criado, para a população serrana, um cemitério no povoado de São Roque da Fartura.

A Serra, no entanto, possuía incontáveis atrativos e potencialidades maravilhosas. Além do solo fértil e clima excelente, possuía magníficas águas correntes e cristalinas com inúmeras cachoeiras, ar puríssimo, matas exuberantes, fauna riquíssima, sem contar a grande beleza topográfica e visão panorâmica de uma boniteza estonteante. Era uma região possuidora de profundo encantamento e grandes potencialidades econômicas. Isto atraiu, para ali, a colônia espanhola, que começa a chegar no final do século XIX e, já na primeira metade do século XX, constituía mais de 90% dos moradores serranos, que se especializaram na produção da batata. A produtividade era um saco de semente para 20 sacos colhidos. Tudo isto sem adubo e sem inseticidas o que, aliás, nem existiam. Colhiam duas safras de batata por ano: a da seca e a das águas.

Além da produção da batata praticavam também a agricultura de subsistência: milho, cebola, feijão, alho, verdura e um capão de café para o uso, além da criação de animais para a carne, leite e ovos. Era uma região de grande produtividade, literalmente uma região de ‘Fartura’. A produção era escoada através dos carros de boi e carroças puxadas por burros.O caminho carroçável era muito precário e em certos trechos não passava de um simples trilho. A viagem do alto da Serra até São João podia demorar, conforme a época do ano, até 20 horas. Era uma epopéia. Vários trechos desse caminho receberam nomes próprios, entre eles: Serra do Deus me livre, devido o perigo e dificuldade de ali trafegar, Serra do Padre, porque o Padre Valeriano tinha ali uma gleba de terra, onde viveu com sua mulher e seus sete filhos. Serra dos Arcuri, italianos que ali tinham propriedade.

Várias grandes fazendas de café passaram a coexistir na Serra da Paulista, junto com os espanhóis batateiros: a Fazenda Fortaleza, Santa Tereza, Santa Inês, Rio Claro, entre outras.     Os caminhos vieram melhorando aos poucos Com o tempo, a prefeitura adotou para si a responsabilidade de cuidar da estrada da Paulista, para que o escoamento da riqueza, aí produzida, fosse menos dificultoso. A melhoria da estrada aconteceu, mas suas condições continuaram precárias por muito tempo, dificultando inclusive a ida diária das professoras, para as escolas ali existentes.

Com o passar dos anos, mais precisamente segunda metade do século XX, a ‘Paulista’ não era mais um pólo agrícola tão importante como fora. Junto com o terceiro milênio, veio a reativação da região, pode-se dizer que a tomamos de “assalto”. O progresso chegou representado pela estrada asfaltada. Tornou-se inclusive uma região com forte vocação turística.

Esta nova realidade pode ser, ou não, uma benção para a região. Almejamos que com ela não venha a degradação da Serra como um todo, que haja preservação paisagística, ausência de vandalismos e nada de degradação ambiental e cultural. É um sacrário e como tal deve ser encarada. Não se pode, não se deve profaná-la. Esta preocupação é necessária, pois onde o ser humano toca, com visão mercantilista, via de regra, ele degrada, desarmoniza e polui.  Conheça mais sobre as riquezas e histórias da Serra da Paulista.

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Maria Célia de Campos Marcondes,
Professora de Sociologia na UNIfeob,
Mestre em Educação,
Membro da Academia de Letras de SJBVista